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Cuidado que move

Professor emérito da UnB, epidemiologista Pedro Tauil fala sobre seu amor ao ensino e demonstra gratidão por uma vida dedicada à coletividade

Até dezembro de 2019, a Secretaria de Comunicação publica perfis de professores eméritos da UnB. Essa é uma iniciativa de valorização daqueles que fazem parte da Universidade e foram reconhecidos pelo atributo em comum que guardam com a instituição: excelência.

Professor aposentado do Núcleo de Medicina Tropical, Tauil tem orgulho da carreira docente. Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

Medalhas e distinções Pedro Luiz Tauil possui em bom número. As honrarias foram acumuladas ao longo de uma trajetória de destaque na área das Ciências da Saúde. Mesmo assim, não é esse tipo de reconhecimento que faz transbordar o coração do docente, do alto de seus 78 anos. “O título que mais me toca é mesmo o de professor emérito. Lutei para ser o melhor professor que poderia ser e tive esse reconhecimento”, confessa.

Foi em 2016 que Tauil recebeu o título de Professor Emérito da Universidade de Brasília. O reconhecimento levou em conta a carreira primorosa do doutor especialista em medicina tropical. Essa área de atuação apresentou-se a Tauil depois da formatura na Universidade de São Paulo (USP), em 1966.

"Quando a faculdade terminou, me vi confrontado com duas possibilidades: eu podia ficar produzindo conhecimento em São Paulo ou podia distribuir o que sabia." Em 1969, Tauil rumou para a hoje tocantinense Porto Nacional – à época parte do norte do estado de Goiás.

A decisão tomada não apenas determinou sua atuação em epidemiologia, mas resume todo o percurso traçado pelo emérito: uma vida dedicada a proporcionar bem-estar a pessoas por meio da ciência. "Acho que a sensação de gostar de epidemiologia vem do caráter coletivo, de prestar serviços à população. Isso me atrai muito", revela.

O cuidado que Tauil despendeu a inúmeros pacientes ao longo da carreira é fruto cultivado em casa. Filho de um comerciário e de uma técnica em contabilidade, o pequeno Pedro vestiu branco e azul – cor que adotou como preferida – até os sete anos de idade por causa de uma promessa da mãe. Zelosa, Dona Isabel Lauterbach prometeu vestir a criança com as cores do manto de uma santa caso não se repetisse o infortúnio vivido com o filho anterior, morto aos 20 minutos de vida. Felizmente, às 4h20 daquela sexta-feira da Paixão, o calvário da mulher Isabel, desejosa por ser mãe, chegava ao fim.

Seu Pedro Tauil, o pai, cuidou sempre para que o filho não precisasse trabalhar em lugar de estudar. Mesmo assim, Pedro Luiz Tauil, o filho, cultivou desde cedo o hábito de conciliar as atividades. Na época do curso preparatório para o vestibular em medicina, o futuro doutor vendia livros para ajudar a cobrir os custos. Muito cedo na vida veio também a percepção sobre a vocação docente. Já aos 12, Tauil dava aulas em um preparatório para o ginásio.

Com entusiasmo juvenil, o professor Pedro Tauil contou memórias de sua vida. Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

Nos anos de faculdade, ministrava aulas de alfabetização quando conheceu o educador Paulo Freire, inspiração de toda a vida. Assim como Freire, Tauil entende que a educação é um ato de amor e de coragem e que o aprendizado deve ser associado a emoções. "É preciso transmitir paixão, não apenas conteúdo. Meu conteúdo não é teórico, é vivido. Acho que isso dá entusiasmo aos estudantes."

As vivências práticas que Tauil acolheu para transmitir começaram mesmo em Porto Nacional. Ali, o jovem doutor atuou em unidade mista de saúde ao lado de três colegas médicos, uma enfermeira e uma assistente social, com a qual veio a se casar. “Foi lá que eu aprendi grande parte da minha vida e o que eu aplico atualmente”, relata. A passagem foi tão marcante que, depois do título de Professor Emérito, a homenagem que mais lhe dá orgulho é justamente a de cidadão portuense.

Durante os anos em Porto Nacional, a ação do grupo contribuiu para erradicar doenças evitáveis por vacinas. O trabalho foi tão bem sucedido que a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) pediu ao emérito que fosse preceptor de alunos do internato médico. Oportunidade em que se intensificou ainda mais o veio pedagógico do professor Tauil, desta vez com o público que lhe viria a ser habitual: o acadêmico.

“Lá em Porto Nacional, toda sexta à tarde chamávamos dois médicos particulares da cidade e fazíamos uma reunião para discutir os óbitos que ocorreram naquela semana. Os alunos participavam. A epidemiologia que a gente vivia era a epidemiologia que eu transmitia para esses alunos. Isso era marcante.”

A experiência foi tão bem sucedida que a UFG sugeriu ao epidemiologista que fizesse mestrado para poder atuar como professor assistente. O tema da dissertação foi também um dos grandes interesses da vida do emérito, que rendeu a ele posição destacada na carreira: a malária. O médico teve contato com a doença pela primeira vez na década de 1960, enquanto atuava na Unidade Mista de Saúde de Porto Nacional.

"Me apaixonei pela malária!”, declara-se. “Era a principal doença que havia nessa região e não apenas diagnosticávamos e tratávamos como um hospital fazia, mas também atuávamos na prevenção e no tratamento intradomiciliar de doentes.” A chance de conjugar numa só atuação a descoberta científica e o trabalho junto à população tocou Tauil. Entre os resultados desta época estão o acúmulo de saberes, que mais tarde foram repassados aos alunos, e a publicação de inúmeros trabalhos sobre malária em revistas de saúde pública.

Depois de três anos na Coordenação de Saúde da Amazônia, no Ministério da Saúde, o professor foi convidado a atuar como diretor da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), um marco brasileiro em política de saúde, reconhecido como o órgão que mais promoveu saúde junto à população rural do Brasil nas décadas de 1970 e 1980. Tauil credita o sucesso do trabalho aos colegas com quem atuou. "Eu já conhecia esse pessoal da época de Porto Nacional. Eles me inspiravam, me trouxeram garra e vontade de resolver problemas.”

A paixão de Tauil pela esposa, Elza Cantuária, emergiu da paixão pela medicina. Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

Nesse tempo, ele esteve envolvido no programa de interrupção da transmissão da doença de Chagas, enfermidade no coração transmitida pelo inseto barbeiro. E foi naqueles dias que o coração do próprio médico foi alvejado. Não pela doença de Chagas nem por qualquer outra enfermidade apaixonante, mas pelos encantos de uma ex-aluna dos tempos de Porto Nacional. Elza Thomas de Cantuária, ginecologista e obstetra, é sua esposa já há 39 anos.

Vê-se por aí que nem a vida familiar de Tauil é descolada de sua profissão. A esposa foi sua aluna, o filho mais novo, João Pedro, tem síndrome de Down e recebe cuidados diários e dedicados do pai presente. A filha mais velha, Marcinha, é doutora em epidemiologia. 

E o professor orgulha-se de cada aluno que, assim como a filha, conseguiu manter interessado por sua área de atuação. “O estudante de medicina geralmente quer aprender a apalpar fígado e coisas assim. Me emociona esses alunos que se dedicaram às áreas de epidemiologia e medicina tropical."

Entre as satisfações trazidas na bagagem das décadas de dedicação, Tauil destaca o fato de nunca ter trabalhado em empresas privadas e sempre ter colaborado com a coisa pública de forma direta. Em 1985, após anos de atuação junto ao Ministério da Saúde, tornou-se consultor de saúde do Senado. Ali teve a chance de realizar algo que ecoou para além de uma região do país, impactando-o como um todo.

A convite do senador paraense Almir Gabriel, relator da parte de seguridade social da Constituição de 1988, Tauil ajudou a construir o que viria a ser a Seção II, do Capítulo II, do Título VIII da carta magna, que versa sobre a saúde como “direito de todos e dever do Estado”. "Vejo muito do meu trabalho lá. Eu nunca tive vínculos com a iniciativa privada e acho que isso ajudou na confiança que o senador Almir e os colegas tinham em mim.”

A atuação na capital federal abriu portas para que Tauil chegasse à Universidade de Brasília, no mesmo ano de 1985. Aposentou-se em 2010 para um tratamento bem-sucedido de câncer, mas nem assim deixou de se envolver com a docência. Apenas em 2018, encerrou seu vínculo de professor colaborador voluntário na Universidade. “Dar aula na UnB era, para mim, um encanto”, resume.

A Universidade de Brasília reconhece a dedicação de Tauil à ciência, às pessoas e à instituição. Para ele, a UnB é mesmo linda!
Foto: Beto Monteiro/Secom UnB

No último dia à frente de uma turma da pós-graduação, Tauil foi homenageado com uma salva de palmas. “Isso me tocou muito. Nunca ninguém tinha feito e foi sem pedir, então me emociona. Os reconhecimentos que mais me trazem alegria são aqueles que enxergam o carinho e a dedicação ao que faço com amor.”

O interesse científico de Tauil também não foi freado pela aposentadoria. Ele ainda contribui em um projeto da Fundação Oswaldo Cruz que busca a substituição do mosquito Aedes aegypti por versões modificadas que sejam incapazes de transmitir doenças. Mas com o fim da rotina rígida, as opções de atividade se diversificaram.

Todas as terças-feiras, por exemplo, o emérito almoça com amigos de juventude. A cada semana, um restaurante e uma experiência diferentes. Sempre passando adiante o que aprende, como de costume, o professor ensina uma lição sobre a vida: manter amigos é muito útil, sobretudo para falar de coisas sobre as quais não se conversa com a família.

Leia também os perfis dos eméritos José Carlos Coutinho e Alcida Ramos.

 

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